Auscultação nacional sobre Lei n.º 51/2025: aplicação continua marcada por dúvidas, atrasos e desigualdades!
26 de agosto de 2026
A ASPE concluiu a análise da auscultação nacional sobre a aplicação da Lei n.º 51/2025 de 7 de abril em todo o território. O questionário reuniu 545 respostas e alcançou profissionais das 39 Unidades Locais de Saúde, de dois dos três Institutos Portugueses de Oncologia e de outras instituições do setor da saúde.
Nesta amostra incluem-se associados da ASPE, enfermeiros filiados noutros sindicatos e não sindicalizados, o que confere à amostra uma dimensão ampla e transversal.
Mais do que medir respostas isoladas a cada pergunta, o conjunto dos dados permite identificar um cenário comum a diferentes regiões e instituições: muitos enfermeiros continuam sem saber se foram abrangidos, se o seu processo já foi analisado, qual o reposicionamento que lhes é devido ou quando serão pagos os respetivos retroativos.
Uma aplicação desigual entre instituições
Os resultados revelam diferenças claras entre instituições. Entre as ULS com um número de respostas que permite uma leitura descritiva mais consistente, Viseu Dão-Lafões e Matosinhos apresentam uma proporção comparativamente mais elevada de participantes que confirmam a identificação dos beneficiários. No Alto Ave, a maioria das respostas aponta para atualização remuneratória e pagamento de retroativos. Em sentido diferente, instituições como São João, Trás-os-Montes e Alto Douro e Algarve não registam respostas afirmativas quanto à identificação e atualização, dentro dos participantes desta auscultação.
Braga e Santo António merecem igualmente atenção: são duas das ULS com maior participação no questionário, mas apresentam níveis muito baixos de confirmação da identificação dos beneficiários. Em várias instituições coexistem respostas “sim”, “não” e “não sei”. Esta aparente contradição pode significar que os processos se encontram em fases diferentes, que foram tratados apenas alguns grupos ou, simplesmente, que a informação não chegou de forma uniforme aos profissionais. Em qualquer dos casos, evidencia uma experiência fragmentada que deve ser esclarecida.
Nos IPO, foram recebidas apenas cinco respostas, sendo por isso um número reduzido de participações que não permite retirar conclusões comparativas sobre estas instituições.
O desconhecimento continua a dominar
Um dos resultados mais expressivos é o elevado número de participantes que não sabe se a sua instituição já identificou todos os enfermeiros com direito à aplicação da lei. Apenas uma minoria consegue confirmar que essa identificação foi concluída. O mesmo padrão repete-se quando se pergunta pela atualização remuneratória e pelo pagamento de retroativos: existem casos em que o processo avançou, mas predominam as respostas negativas, a incerteza e a ausência de informação concreta.
Este desconhecimento não prova, por si só, que as instituições nada tenham feito. Mostra, contudo, que a informação não chegou aos profissionais de forma clara, individual e verificável. Muitos enfermeiros não sabem se constam do levantamento efetuado pela entidade empregadora, que critérios foram usados ou em que fase se encontra o seu processo.
Também entre os profissionais que referem ter recebido algum pagamento persistem dúvidas quanto à data a partir da qual foram calculados os retroativos. As respostas e os comentários mencionam datas diferentes, revelando interpretações e práticas que não parecem ser uniformes em todo o país.
Realidades diferentes entre instituições
A auscultação evidencia ritmos muito distintos de aplicação. Em algumas ULS, vários participantes confirmam que a identificação ou a atualização remuneratória já avançou. Noutras, predominam relatos de ausência de aplicação, processos ainda em análise ou espera por orientações superiores. Existem igualmente instituições onde coexistem respostas contraditórias, com alguns profissionais a indicarem que o processo foi concluído e outros, da mesma entidade, a afirmarem que continuam sem qualquer informação.
Estas diferenças podem resultar de processos individuais em fases distintas, do tratamento de apenas alguns grupos profissionais ou de falhas na comunicação interna. Independentemente da explicação,
o cenário aponta para uma aplicação fragmentada, sem a uniformidade e a transparência necessárias. As comparações devem ser lidas com prudência, porque o número de respostas varia bastante entre instituições e o questionário não constitui uma auditoria administrativa.
Os principais problemas relatados pelos enfermeiros
Os 185 comentários abertos ajudam a compreender a experiência que está por detrás dos números. Um dos temas mais repetidos é a falta de resposta dos serviços de recursos humanos, dos conselhos de administração e das direções. Há referências a emails sem resposta, pedidos sucessivos de esclarecimento e comunicações que se limitam a indicar que a instituição aguarda orientações da ACSS, da tutela ou do Ministério da Saúde.
Outro problema recorrente é a perceção de atraso ou aplicação incompleta. Alguns profissionais afirmam que o seu processo continua em análise; outros referem que apenas certos grupos foram abrangidos ou que a instituição considera resolvidas situações que os próprios enfermeiros continuam a contestar.
As dúvidas sobre o posicionamento remuneratório ocupam também um lugar central. Surgem relatos de permanência prolongada em posições virtuais, progressões com ganhos reduzidos, inversões remuneratórias face a colegas com menor antiguidade e exercício de funções de especialista sem a remuneração correspondente. Os retroativos constituem outra fonte de conflito, sobretudo quando há reposicionamento sem pagamento dos valores anteriores ou quando não é apresentada uma memória de cálculo que permita confirmar os montantes.
A diversidade das situações demonstra que será necessária uma resposta em dois níveis:
- uma orientação nacional uniforme, que impeça interpretações divergentes entre instituições;
- e uma revisão individual de cada percurso, capaz de considerar concursos, mudanças de entidade, vínculos diferentes, períodos de ausência e progressões anteriores.
Um problema de execução e de transparência
A leitura global dos resultados aponta para uma conclusão clara: a aplicação da Lei n.º 51/2025 continua marcada não apenas por atrasos, mas também por um défice de transparência. Mesmo onde existem sinais de execução, muitos profissionais não receberam informação suficiente para perceber como foi tratada a sua situação.
A concretização de um direito remuneratório não pode depender da insistência individual de cada enfermeiro, da capacidade para interpretar vários diplomas ou do recurso imediato à via judicial. Cada profissional abrangido deve receber uma comunicação individual que identifique a posição anterior e a nova posição, os pontos considerados, o fundamento legal da decisão, o cálculo dos retroativos e a data prevista para o respetivo pagamento.
Juntos Construímos o Futuro!
