ASPE reúne com IPPS dos Inválidos do Comércio
para debater desafios da Enfermagem
no setor social
23 de setembro de 2026
A ASPE reuniu esta quarta-feira com a direção da instituição dos Inválidos do Comércio, num encontro que culminou com uma visita pelas instalações desta IPSS em Lisboa, numa altura que dá assistência a mais de 330 residentes, muitos deles em situação de elevada dependência.
O aumento da longevidade, a multimorbilidade, os elevados níveis de dependência e a crescente complexidade clínica fazem com que instituições desta natureza sejam hoje chamadas a assegurar cuidados que vão muito além do acompanhamento social inicialmente associado às estruturas residenciais para pessoas idosas.
Quais os principais desafios de saúde, sobretudo ao nível dos cuidados de enfermagem, foram o principal tema desta discussão.
Os Inválidos do Comércio estiveram representados pela Vogal da Direção Maria Antónia Figueiredo e pelo Enfermeiro Coordenador desta IPSS, Sérgio Serra.
Pela ASPE, estiveram presentes a sua Presidente, Lúcia Leite, a Vice-Presidente da Direção Álvara Silva, o Conselheiro Nacional Ricardo Rio e o Delegado Sindical Paulo Marques.
Inválidos do Comércio: ID desta IPSS com cuidados cada vez mais diferenciados
A nível de enquadramento histórico, esta ERPI criada em 1929 por um grupo de comerciantes preocupados com os problemas de saúde dos seus pares, é atualmente uma instituição aberta a todos, independentemente do seu ramo profissional, contando com mais de nove mil sócios.
Esta IPSS dispõe ainda de uma creche para crianças até aos três anos, que conta atualmente com 76 meninos dia-a-dia.
Durante o encontro, os responsáveis dos Inválidos do Comércio deram a conhecer a organização dos cuidados de saúde existentes na instituição e chamaram a atenção para o crescente grau de diferenciação das respostas prestadas.
Os Inválidos do Comércio são uma ERPI que dispõe de uma equipa multidisciplinar constituída por médicos, enfermeiros, um psiquiatra, fisioterapeutas, um psicólogo, um ospetopata, um nutricionista e uma farmácia que acompanham diariamente os residentes.
Preocupações e desafios na assistência aos doentes
Esta instituição tem procurado adaptar a sua organização à evolução das necessidades dos residentes, contudo, essa transformação coloca um problema central: a realidade dos cuidados prestados evoluiu mais rapidamente do que o enquadramento e o financiamento das próprias instituições.
De acordo com o Enfermeiro Coordenador desta IPSS, Sérgio Serra, um estudo que desenvolveu demonstra que esta ERPI está ao nível de uma unidade de cuidados continuados – como uma nursing home no Reino Unido ou nos Estados Unidos da América - ao nível dos cuidados de saúde que presta.
Na prática, estas estruturas acabam por assegurar respostas de saúde que, em diversas situações, se aproximam de níveis de cuidados mais diferenciados, sem disporem necessariamente do reconhecimento ou dos recursos financeiros correspondentes.
Outros dos desafios mencionados é o facto de os utentes que para aqui se dirigem serem doentes já numa fase muito adiantada do processo de doença, com várias comorbilidades, pois as famílias já não conseguem gerir o tipo de patologias/complexidade clínica destes cenários. Esta situação obriga a uma prestação muito mais próxima e atenta dos cuidados.
Fixar enfermeiros é um dos grandes desafios
A dificuldade de recrutamento e retenção de enfermeiros ocupou uma parte importante da reunião. A escassez de profissionais não afeta apenas o setor social. Existe atualmente uma forte competição por enfermeiros entre diferentes instituições e setores, à qual acresce a saída de profissionais para outros países ou mesmo para outras áreas profissionais.
Para a ASPE, responder a este problema exige mais do que atuar exclusivamente sobre a remuneração.
A valorização da carreira, a previsibilidade e organização dos horários, as oportunidades de formação e desenvolvimento profissional, o reconhecimento das competências e a possibilidade de participação em projetos diferenciados são fatores que podem contribuir para tornar estas instituições mais atrativas para os enfermeiros.
Saúde e Segurança Social precisam de respostas articuladas
A reunião evidenciou ainda uma questão estrutural: a necessidade de uma maior articulação entre as políticas de Saúde e de Segurança Social.
O envelhecimento da população e o aumento das doenças crónicas tornam cada vez mais difícil separar rigidamente aquilo que é uma necessidade social daquilo que é uma necessidade de saúde.
As instituições que acolhem pessoas idosas encontram-se precisamente nessa fronteira.
Por um lado, respondem às necessidades sociais, de acompanhamento e de apoio à dependência. Por outro, acolhem pessoas com necessidades clínicas crescentes, que exigem vigilância, terapêutica, prevenção de complicações, reabilitação e acompanhamento por profissionais qualificados.
Esta evolução exige uma reflexão sobre os atuais modelos de financiamento e sobre o reconhecimento do papel que estas instituições já desempenham na resposta global às necessidades da população.
ASPE disponível para trabalhar com o setor social
A reunião nos Inválidos do Comércio insere-se na estratégia da ASPE de aprofundar o conhecimento sobre as diferentes realidades em que os enfermeiros exercem a profissão e de construir propostas sustentadas nas condições concretas encontradas no terreno.
A Associação manifestou disponibilidade para colaborar na divulgação de oportunidades profissionais, contribuir para a discussão sobre modelos de carreira e organização do trabalho e aprofundar a reflexão sobre referenciais adequados ao exercício da Enfermagem no setor social.
O envelhecimento da população portuguesa torna esta discussão cada vez mais urgente, e as instituições sociais estão a mudar porque também mudaram as pessoas que delas necessitam. Reconhecer essa transformação implica olhar para os cuidados que já são prestados, para os profissionais que diariamente os asseguram e para as condições necessárias para garantir a sua continuidade e qualidade.
Para a ASPE, esse é um debate que deve envolver profissionais, instituições, decisores e sociedade, colocando no centro uma questão essencial: garantir respostas adequadas às necessidades de uma população que vive mais anos e que, simultaneamente, necessita de cuidados cada vez mais complexos
Juntos Construímos o Futuro!
