ASPE acompanhou debate sobre o futuro da saúde no Cascais International Health Forum 2026
25 de setembro de 2026

Longevidade, inteligência artificial, novas tecnologias, futuro dos profissionais de saúde e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) estiveram entre os grandes temas discutidos no Cascais International Health Forum 2026 (Fórum Internacional de Saúde de Cascais). A ASPE acompanhou os dois dias do encontro, que contou ainda com a presença do Presidente da República, António José Seguro.
A Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros (ASPE) marcou presença no Cascais International Health Forum 2026, realizado nos dias 24 e 25 de setembro, no Centro de Congressos do Estoril, acompanhando dois dias de reflexão sobre alguns dos principais desafios que se colocam atualmente aos sistemas de saúde e às sociedades.
Sob o mote “Viver Mais, Viver Melhor”, o encontro reuniu decisores políticos, responsáveis institucionais, profissionais de saúde, investigadores, académicos, empresas, especialistas em inovação e representantes da sociedade civil, num evento com uma abordagem multidisciplinar à longevidade e às transformações que esta implica para a saúde, a economia e a organização da sociedade.
A delegação da ASPE foi constituída pela Presidente, Lúcia Leite, pelas Vice-Presidentes Álvara Silva e Andrea Oliveira, pela Vice-Presidente do Conselho Nacional, Maria Guimarães, pelo Conselheiro Nacional Ricardo Rio e pelo Delegado Sindical Paulo Marques.
A presença da ASPE permitiu acompanhar diferentes perspetivas sobre matérias com impacto direto no presente e no futuro da prestação de cuidados e dos enfermeiros, numa edição que colocou a longevidade no centro da discussão, mas que rapidamente mostrou que falar de viver mais é também falar de prevenção, recursos humanos, condições de trabalho, inovação tecnológica, organização dos cuidados e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.
Da longevidade à necessidade de transformar os cuidados
O primeiro dia do Fórum, subordinado ao tema “A Revolução da Longevidade”, partiu de uma questão essencial: de que forma podem os anos adicionais de vida conquistados nas últimas décadas traduzir-se também em mais anos vividos com saúde, autonomia e qualidade de vida?
Na conferência de abertura, o antigo ministro das Finanças (2015-2020) e ex-presidente do Eurogrupo Mário Centeno propôs olhar para a longevidade, antes de mais, como uma história de sucesso.
Mário Centeno recordou a profunda transformação vivida pelo país nas últimas cinco décadas: em 1974, a esperança média de vida em Portugal rondava os 68 anos, tendo aumentado cerca de 13 anos desde então, enquanto a mortalidade infantil registou uma redução muito expressiva. Para Centeno, estes resultados não podem ser dissociados do investimento realizado na saúde e na educação, que apontou como duas das políticas públicas essenciais de um Estado moderno.
Mas viver mais traz também novos desafios, e o economista chamou a atenção para o envelhecimento da população, as profundas diferenças territoriais, a necessidade de reforçar os cuidados de longa duração e os laços sociais, bem como para as consequências de uma vida ativa mais prolongada. Neste último domínio, destacou a importância da formação ao longo da carreira para preservar a produtividade dos trabalhadores mais velhos, alertando para o facto de apenas 35% dos trabalhadores europeus entre os 55 e os 64 anos receberem formação, segundo os dados apresentados.
“Nós estamos a gerir um sucesso, não estamos a gerir uma crise”, sintetizou Mário Centeno, defendendo que o aumento da longevidade deve ser encarado a partir das conquistas alcançadas, sem ignorar os problemas que estas colocam às políticas públicas.
Mário Centeno colocou ainda uma pergunta particularmente direta: quem financiará os cerca de 30 anos adicionais de vida conquistados pela sociedade portuguesa? Saúde, Segurança Social e cuidados de longa duração enfrentarão uma pressão crescente num país onde, segundo os números apresentados, 24,3% da população tem mais de 65 anos.
Sublinhando o forte crescimento da despesa do Serviço Nacional de Saúde nos últimos anos, defendeu a necessidade de discutir abertamente as escolhas coletivas e a forma de as financiar. O desafio da longevidade, deixou implícito, não está em lamentar que as pessoas vivam mais, mas em encontrar um modelo económico, social e de cuidados capaz de sustentar essa conquista.
Seguiu-se a reflexão em torno do tema “Viver Mais com Qualidade: o que as Pessoas Esperam da Nova Longevidade”, colocando a pessoa e as suas expectativas no centro de uma mudança que não pode ser medida apenas pelo número de anos vividos.
A discussão sobre longevidade conduziu igualmente à necessidade de uma mudança de paradigma: passar de sistemas predominantemente orientados para responder à doença para modelos capazes de acompanhar a saúde ao longo da vida, reforçando a prevenção, a promoção da saúde e a intervenção precoce.
Esta transformação assume particular relevância para a enfermagem, pela proximidade dos enfermeiros às pessoas e comunidades e pelo papel que estes profissionais desempenham na promoção da saúde, prevenção da doença, acompanhamento da doença crónica e continuidade dos cuidados.
Inteligência artificial: oportunidade, mas também responsabilidade
A transformação tecnológica da saúde ocupou um espaço significativo no programa. Na sessão plenária “Inteligência Artificial: Oportunidades, Riscos e Responsabilidade”, foram colocadas em discussão as possibilidades abertas pela utilização crescente da inteligência artificial, mas também os limites que devem acompanhar a sua adoção.
Entre as questões abordadas estiveram a transparência dos algoritmos, a responsabilidade associada às decisões automatizadas, a proteção dos dados pessoais, os riscos de enviesamento e de agravamento das desigualdades e a necessidade de assegurar uma utilização ética e segura da inteligência artificial.
Num setor onde as decisões têm impacto direto na vida e na saúde das pessoas, a inovação tecnológica coloca, assim, desafios que ultrapassam a eficiência ou a capacidade técnica. A confiança, a segurança e a manutenção de uma abordagem centrada na pessoa permanecem dimensões fundamentais.

Quando os cuidados entram em casa
A sessão “Tecnologia que Cuida: Wearables, Telemedicina e Saúde em Casa” transportou a discussão tecnológica para a prestação concreta de cuidados.
Dispositivos capazes de acompanhar parâmetros de saúde em tempo real, telemedicina e sistemas de monitorização remota estão a alterar progressivamente a relação entre os serviços de saúde, os profissionais e os cidadãos. Foi defendido pelos oradores que estas ferramentas podem permitir uma deteção mais precoce de alterações no estado de saúde, prevenir complicações e aumentar a autonomia das pessoas, assumindo especial importância numa população progressivamente mais envelhecida.
O próprio domicílio começa, neste contexto, a ganhar um papel diferente enquanto espaço de prestação de cuidados.
A mudança encerra oportunidades, mas também novos desafios. A integração destas soluções nos sistemas existentes, a literacia digital, as desigualdades no acesso à tecnologia, a proteção dos dados e a garantia da qualidade e segurança dos cuidados são algumas das matérias que acompanham esta transformação.
Para os profissionais de saúde, e particularmente para os enfermeiros, esta evolução significa também novas formas de acompanhamento dos utentes e uma progressiva transformação dos contextos onde os cuidados são prestados.
Dados em saúde: partilhar informação sem perder a confiança
O segundo dia, dedicado ao eixo “Sociedade, Economia & Futuro”, iniciou as sessões plenárias com “Dados em Saúde, Interoperabilidade e Confiança”.
A transformação digital dos sistemas de saúde depende cada vez mais da capacidade de recolher, integrar e utilizar informação de forma segura. A fragmentação dos sistemas e as dificuldades de interoperabilidade continuam, contudo, a limitar o potencial dos dados tanto na decisão clínica como na gestão dos serviços e na definição das políticas públicas.
O debate reuniu, entre outros, o Presidente do Conselho de Administração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, Luís Goes Pinheiro, e responsáveis das áreas tecnológica e da representação dos doentes.
A questão da confiança assumiu particular importância: a utilização crescente de informação clínica e de dados pessoais pode melhorar a continuidade dos cuidados e a capacidade de decisão, mas exige simultaneamente segurança, transparência e garantias para os cidadãos.
Que futuro para os profissionais de saúde?
Entre as sessões com maior relevância para a delegação da ASPE esteve “O Futuro dos Profissionais de Saúde na Era da Tecnologia”.
A rápida evolução científica, a inteligência artificial, as ferramentas digitais e os novos modelos de cuidados estão a alterar as competências exigidas aos profissionais e a própria organização do trabalho em saúde.
A sessão reuniu o, Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, João Eurico Cabral da Fonseca, e a professora da Universidade Europeia de Madrid Lourdes Martin Mendez, e centrou-se na preparação dos profissionais para este novo contexto.
A formação inicial e contínua, a aquisição de novas competências, a capacidade de adaptação, o trabalho em equipas multidisciplinares, as novas exigências colocadas às lideranças e às instituições e o impacto da tecnologia na organização do trabalho estiveram no centro da reflexão.
Mas o debate colocou também uma questão particularmente relevante: como incorporar a tecnologia sem desumanizar os cuidados?
A inovação pode apoiar profissionais, melhorar processos e criar possibilidades de diagnóstico, acompanhamento e intervenção. Porém, a relação entre o profissional de saúde e a pessoa cuidada continua a constituir uma dimensão fundamental dos cuidados, não devendo a tecnologia ser encarada como substituto dessa relação.
Para a enfermagem, este debate ganha particular significado. A transformação tecnológica terá inevitavelmente impacto no exercício profissional, mas coloca também a necessidade de garantir que a evolução dos modelos de cuidados é acompanhada pela valorização das competências, pela formação adequada e por condições de trabalho que permitam aos profissionais exercer plenamente as suas funções.
Uma sociedade que vive mais obriga a repensar a proteção social
Na tarde de sexta-feira, a sessão “Demografia, Longevidade e Sustentabilidade da Segurança Social” analisou uma das consequências mais profundas do aumento da esperança de vida: o impacto das alterações demográficas sobre os sistemas de proteção social.
Com a participação de Maria João Valente Rosa, Camile Giaretta Sachetti e Margarida Corrêa de Aguiar, e moderação de Álvaro Beleza, a sessão colocou em debate a pressão que o envelhecimento demográfico exerce sobre as pensões, os cuidados de saúde e os apoios sociais.
Financiamento, equidade entre gerações, participação no mercado de trabalho e capacidade de adaptação das políticas públicas estiveram entre os temas em análise.
Foi precisamente após acompanhar esta sessão que o Presidente da República, António José Seguro, interveio no Cascais International Health Forum.
Presidente da República: é preciso passar dos diagnósticos à ação!
Na sua intervenção, o Presidente da República António José Seguro começou por recuperar uma das ideias apresentadas no painel anterior: muitos dos diagnósticos sobre os desafios da longevidade e da saúde já estão feitos e é necessário passar à ação.
António José Seguro defendeu uma reflexão que ultrapasse respostas setoriais e permita pensar, de forma integrada, a sociedade que Portugal pretende construir perante a transformação demográfica. Anunciou, nesse contexto, que o segundo ano do seu mandato terá a demografia como um dos eixos de atenção, considerando as suas implicações no crescimento económico, produtividade, criação de riqueza e organização da sociedade.
O Chefe de Estado de Portugal destacou depois os progressos alcançados pelo país nas últimas décadas, recordando que a esperança média de vida em Portugal se situa atualmente nos 81 anos, mais 17 do que no início da década de 1960, e salientou a forte redução da mortalidade infantil.
Uma parte significativa desses progressos foi atribuída por António José Seguro ao SNS, que classificou como uma das grandes construções da democracia portuguesa, assente no princípio de que o acesso à saúde deve constituir um direito de todos, mas viver mais, advertiu, não significa necessariamente viver melhor.
O Presidente da República chamou a atenção para o número de anos de vida saudável depois dos 65 anos e para a realidade das pessoas que envelhecem com múltiplas doenças crónicas ou em situações de solidão.
Nesse sentido, apontou a prevenção como uma das áreas em que Portugal deve investir mais, destacando a importância da literacia em saúde, vacinação, rastreios, atividade física, alimentação, sono e saúde mental.
E atribuiu aos cuidados de saúde primários um papel central nessa transformação, defendendo que estes devem constituir o coração do SNS e associando a justiça no acesso à saúde à possibilidade de cada português dispor de médico e enfermeiro de família.
Presidente da República destaca enfermeiros e valorização das carreiras
A intervenção de António José Seguro assumiu particular relevância para os profissionais de saúde quando abordou diretamente as dificuldades que o SNS enfrenta.
Listas de espera, serviços de urgência sob pressão, falta de médicos de família e desgaste dos profissionais foram alguns dos problemas identificados pelo Presidente da República.
O Presidente da República destacou o contributo daqueles que diariamente asseguram o funcionamento do SNS, referindo expressamente, entre outros profissionais, médicos e enfermeiros, e defendeu a importância de criar condições para os manter no sistema.
A valorização das carreiras e a fixação dos profissionais nos locais onde são mais necessários foram apontadas como investimentos essenciais, a par da criação de condições para que as gerações mais jovens possam construir o seu futuro profissional em Portugal.
A mensagem cruza-se diretamente com matérias que têm estado no centro da intervenção sindical da ASPE: o futuro do SNS não depende apenas da introdução de novas tecnologias ou da reorganização dos modelos assistenciais, mas também da capacidade de valorizar, atrair e reter os profissionais que asseguram os cuidados.
“Valorizar as carreiras e fixar profissionais que fazem mais falta é um investimento essencial” - Presidente da República, António José Seguro

Tecnologia deve apoiar, não substituir, a relação humana
António José Seguro abordou igualmente uma das questões que atravessou os dois dias do Fórum: o impacto da inovação tecnológica na saúde.
Inteligência artificial, dados em saúde, telemedicina, hospitalização domiciliária e medicina personalizada foram identificados como instrumentos com capacidade para transformar a prestação de cuidados, antecipar diagnósticos, apoiar o trabalho dos profissionais e aproximar os serviços das pessoas.
O Presidente da República alertou, contudo, para a necessidade de regras, transparência e proteção dos dados, de forma a impedir que a inovação tecnológica agrave desigualdades.
E deixou uma ideia particularmente significativa num Fórum onde tanto se falou de inteligência artificial e transformação digital.
“A tecnologia deve reforçar e nunca substituir a relação humana entre o doente e aquele que cuida” - Presidente da República, António José Seguro
Um pacto para a saúde e uma visão de longo prazo
Na parte final da intervenção, António José Seguro defendeu que a sustentabilidade do SNS não depende apenas de gastar menos, mas de investir melhor, através de planeamento, avaliação, boa gestão e estabilidade.
O Chefe de Estado considerou ainda que as políticas de saúde não podem ficar dependentes de ciclos políticos curtos e reiterou a disponibilidade da Presidência da República para favorecer um entendimento de longo prazo em torno da saúde, enquadrado no Pacto Estratégico para a Saúde lançado no início do seu mandato.
A intervenção terminou com uma síntese do desafio que esteve presente ao longo dos dois dias do Cascais International Health Forum: a ciência tornou possível aumentar a longevidade, mas transformar essa conquista em qualidade de vida exige decisões coletivas, políticas públicas e capacidade de ação.
ASPE acompanha as transformações que vão marcar o futuro da enfermagem
A participação da delegação da ASPE nos dois dias do Cascais International Health Forum permitiu acompanhar um debate que foi muito além da longevidade.
Da inteligência artificial à telemedicina, dos cuidados domiciliários aos dados em saúde, da sustentabilidade do SNS à valorização dos seus profissionais, os diferentes painéis convergiram numa ideia: os sistemas de saúde estão em transformação e essa mudança terá necessariamente de envolver quem diariamente presta cuidados, os enfermeiros.
Para a ASPE, acompanhar estes espaços de reflexão significa também acompanhar as mudanças que terão impacto direto no exercício profissional dos enfermeiros e antecipar os desafios que delas resultarão.
A inovação e a tecnologia podem abrir novas possibilidades para a prestação de cuidados. Mas um sistema de saúde preparado para uma sociedade mais longeva continuará a depender de profissionais qualificados, valorizados e com condições para exercer.
Discutir o futuro da saúde é, inevitavelmente, discutir também o futuro dos enfermeiros.
Juntos Construímos o Futuro!
