8.ª Reunião Negocial do ACT: Falta de especialistas em Saúde na discussão atrasa negociação


10 de abril de 2026

A ASPE participou em nova reunião negocial com a tutela, no âmbito da revisão do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) aplicável aos enfermeiros, tendo voltado a defender um conjunto de propostas que visam reforçar a proteção das condições de trabalho, a segurança dos cuidados e a valorização da profissão.


A mais recente reunião negocial entre este sindicato e a tutela ficou marcada pela clara recusa do Governo em discutir, em sede de ACT matérias que a ASPE considera estruturantes para o exercício profissional dos enfermeiros.



Durante a reunião, a ASPE apresentou uma revisão sistematizada da proposta do Governo, identificando matérias em que existe convergência, mas também vários pontos em que se considera necessária uma regulação mais clara e ajustada à realidade concreta do exercício da enfermagem.

ASPE antecipou propostas e fundamentação técnica antes da reunião


Antes da ronda negocial, a ASPE remeteu à tutela um conjunto de contrapropostas, para integração na ata da reunião, acompanhadas igualmente por uma versão com registo de alterações, com o objetivo de facilitar a análise técnica e o próprio processo de negociação.


A ASPE foi clara, explicando que as suas propostas procuram apresentar soluções de flexibilidade e novas modalidades e regimes de trabalho, com proteção dos direitos dos enfermeiros, criando soluções equilibradas para a gestão do tempo de trabalho e para a adaptação a novos modelos de organização dos serviços de saúde.


O email remetido à tutela integrou também o parecer da Ordem dos Enfermeiros, solicitado pela ASPE, no qual é reforçada a necessidade de garantir condições de trabalho que respeitem a deontologia profissional, designadamente no que respeita aos períodos de integração, à segurança dos cuidados e à responsabilização clínica dos enfermeiros.


Para a ASPE, este contributo técnico reforça a pertinência das propostas apresentadas, sobretudo nas matérias relacionadas com mobilidade, integração em novos contextos e definição de posto de trabalho.

Matérias em discussão na reunião


Mobilidade interna e posto de trabalho


Um dos momentos mais significativos da reunião centrou-se na proposta sindical de criação de uma cláusula específica sobre posto de trabalho, mobilidade interna e funcional.

A ASPE defendeu a necessidade de regular, no ACT, a mobilidade entre postos de trabalho dentro das ULS e dos diferentes serviços, sublinhando que esta realidade não pode ser tratada como mera gestão administrativa de recursos humanos.


Na enfermagem, a mudança de posto de trabalho implica adaptação técnica, integração em equipas diferenciadas, conhecimento de equipamentos e domínio de procedimentos específicos. Uma alteração sem regras claras pode comprometer a segurança do doente, do profissional e a própria resposta assistencial.



Apesar desta fundamentação, a Secretária da Administração Interna Marisa Garrido entendeu que a matéria deve ser analisada “noutra sede”, recusando, para já, a sua inclusão no ACT. Ao remeter temas essenciais como estes para “outra sede”, a tutela afastou-se, para já, da possibilidade de criar regras claras sobre realidades que afetam diariamente os profissionais, os serviços e a segurança dos cuidados. Para a ASPE, esta posição é inaceitável e representa uma verdadeira demissão negocial sobre aspetos centrais das relações laborais em enfermagem suportada numa visão distorcida da realidade.

Horários de trabalho com previsibilidade continuam a ser prioridade


Outro dos pontos centrais da proposta da ASPE incidiu sobre a organização dos horários de trabalho, uma das matérias que mais impacto tem na vida profissional e familiar dos enfermeiros.



A ASPE propôs que as escalas sejam elaboradas e publicitadas com antecedência mínima de três meses, permitindo previsibilidade e melhor conciliação entre vida pessoal e profissional.


Foi ainda defendido que, após a publicação da escala, as alterações ao horário individual só possam ocorrer com concordância do enfermeiro e validação por correio eletrónico, travando práticas recorrentes de alterações unilaterais e de última hora.

A tutela manifestou reservas, alegando impacto na capacidade de gestão das instituições, mas reconheceu a necessidade de analisar a proposta com maior profundidade.

35 horas semanais mantêm-se como linha vermelha


No âmbito da cláusula relativa ao período normal de trabalho, a ASPE voltou a reafirmar que a regra das 35 horas semanais deve ficar expressamente salvaguardada no ACT.



A proposta sindical prevê que o período normal de trabalho seja, em regra, de 7 horas diárias e 35 horas semanais, sem prejuízo da organização dos horários entre segunda-feira e domingo, em função do funcionamento das unidades.

Para a ASPE, esta redação garante flexibilidade organizacional sem abrir a porta à descaracterização de um direito estruturante da profissão.

Descanso semanal e vida familiar em cima da mesa


A conciliação entre vida profissional e familiar foi outro eixo forte da intervenção sindical.

A ASPE propôs que os enfermeiros tenham direito, pelo menos, a um sábado e um domingo consecutivos por mês, defendendo que esta é uma condição mínima para assegurar tempo de qualidade em família.



A proposta surge em contraponto ao modelo apresentado pela tutela, que, apenas propõe o direito a um sábado e um domingo consecutivos de 3 em 3 meses, o que na leitura sindical, representa um retrocesso face a práticas atualmente existentes.

Feriados, tolerâncias e trabalho por turnos exigem justiça


A reunião permitiu ainda aprofundar um tema que continua a gerar desigualdades: o tratamento dos feriados e tolerâncias de ponto no regime de turnos.

A ASPE defendeu que deve ficar explícito no ACT que os feriados são considerados mesmo quando ocorram ao sábado ou domingo, precisamente para evitar interpretações divergentes e incumprimentos nas instituições.


Foi também reforçada a necessidade de corrigir injustiças frequentes relacionadas com as tolerâncias de ponto, sobretudo para os profissionais que, por se encontrarem em regime de turnos ou em folgas compensatórias, acabam por não beneficiar de dispensas concedidas a outros trabalhadores.




 

Ficou acordado que a próxima ronda negocial terá lugar a 30 de abril, data em que a tutela deverá apresentar posição sobre as propostas, entretanto remetidas, e às quais a ASPE espera que mereçam a devida atenção e aceitação.

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