47 anos de SNS: ASPE presente nas celebrações

do Ministério da Saúde com foco no futuro



15 de setembro de 2026


A ASPE marcou presença nas comemorações do 47.º aniversário do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que decorreram esta terça-feira no Convento de São Francisco, em Coimbra. Diversos profissionais, gestores, investigadores, estudantes e utentes uniram-se para debater os principais desafios do SNS e diferentes propostas para garantir a sua capacidade de resposta no futuro.


Participam na cerimónia a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, a Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, e o Presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Coimbra, Francisco Matos.


Para a ASPE, celebrar 47 anos do Serviço Nacional de Saúde é reconhecer uma das mais importantes conquistas sociais do país, mas é também olhar para um sistema profundamente diferente daquele que nasceu em 1979 e perguntar como pode continuar a responder às necessidades dos cidadãos nas próximas décadas.

Mais do que um retrato dos problemas, o encontro permitiu também confrontar diferentes perspetivas sobre aquilo que terá de mudar a curto, médio e longo prazo.

Um SNS que precisa de devolver tempo para cuidar


Ao longo do encontro, diferentes intervenções convergiram em problemas há muito identificados: excesso de burocracia, desgaste dos profissionais de saúde, necessidade de reforçar os cuidados de proximidade, melhor aproveitamento das competências existentes, dificuldade de integração entre diferentes níveis de cuidados e utilização ainda insuficiente dos dados, da investigação e da tecnologia.

A sessão de abertura ficou marcada pela evocação de António Arnaut e pela reafirmação do SNS enquanto conquista democrática, assente na dignidade e no compromisso com os cidadãos.


Francisco Maio Matos, presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra, destacou o papel dos profissionais de saúde e a importância do trabalho em rede e da solidariedade entre instituições.


Ana Abrunhosa destacou igualmente a importância da defesa e reforma do SNS, da literacia em saúde, da coesão territorial e do reforço de uma rede de cuidados de proximidade capaz de responder às necessidades concretas das populações.


Já a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, evocou o legado de António Arnaut e o papel desempenhado pelo SNS ao longo das últimas décadas, mas foi no painel dedicado aos desafios do sistema que se tornaram particularmente evidentes os problemas que hoje o SNS atravessa.



A médica Mariana Pinto Silva chamou à atenção para o impacto da burocracia e para o desgaste sentido pelos profissionais, defendendo a necessidade de lhes devolver tempo para aquilo que constitui o centro da sua atividade: cuidar.


Foi também salientada uma excessiva orientação do sistema para a resposta à doença e à urgência, em detrimento da prevenção.

A necessidade de passar de um SNS predominantemente reativo para um modelo mais preventivo surgiu, assim, como uma das ideias fortes da discussão.

Reforçar a proximidade, não alimentar as urgências


Catarina Matias, médica de Medicina Geral e Familiar (MGF), identificou como desafios a desburocratização, a investigação, a utilização dos dados e a descentralização dos cuidados e dos recursos para a comunidade.

A especialista em MGF destacou também a necessidade de redistribuir competências e confiar mais no trabalho em equipa.

Defendeu ainda que a resposta à pressão sobre os serviços de urgência não deverá passar por deslocar profissionais dos cuidados de saúde primários para os hospitais, mas precisamente por reforçar os cuidados de proximidade, os cuidados de saúde primários e as respostas domiciliárias.


Também a enfermeira Sara Luz colocou no centro do debate o aproveitamento das competências dos diferentes profissionais de saúde.

Na sua intervenção, chamou a atenção para competências avançadas dos enfermeiros que continuam subaproveitadas, nomeadamente na vigilância da doença crónica e da gravidez de baixo risco.


A enfermeira sublinhou que a organização dos cuidados deve partir das necessidades das pessoas e não das fronteiras entre profissões.

Outro problema identificado foi a falta de continuidade entre diferentes momentos do percurso do utente.

Uma alta hospitalar, por exemplo, não deveria significar o fim do acompanhamento até que seja o próprio cidadão a procurar novamente o sistema. A articulação com os cuidados de saúde primários, unidades comunitárias, equipas de cuidados continuados ou hospitalização domiciliária deveria fazer parte do percurso assistencial.



A ideia ficou sintetizada numa distinção particularmente clara: é possível tratar corretamente um episódio e, ainda assim, falhar o percurso do doente.

A saúde não começa nem acaba no hospital


Na perspetiva da gestão, Miguel Lopes chamou a atenção para outro desafio: a tendência para concentrar nas instituições de saúde toda a responsabilidade pela saúde das populações.

A saúde depende, contudo, de múltiplos atores e de fatores que ultrapassam largamente as paredes dos hospitais. Também a centralização excessiva da resposta nos serviços de urgência foi questionada.


Num país envelhecido, com necessidades cada vez mais complexas e com uma presença crescente de doença crónica e multimorbilidades, torna-se essencial conhecer melhor o contexto social e demográfico das pessoas e organizar os cuidados em função dessa realidade.



Mais uma vez, o debate regressou à proximidade: manter acessíveis as portas dos cuidados de saúde primários, reforçar o acompanhamento na comunidade e evitar que a urgência funcione como resposta quase automática para necessidades que poderiam ser acompanhadas noutros níveis do sistema foram ideias que atravessaram várias intervenções.

Temos dados, agora falta transformá-los em conhecimento!


Um dos grandes temas discutidos esta terça-feira foi a capacidade do SNS para utilizar os dados que produz diariamente.

Teresa Mota Garcia, data scientist do IPO do Porto, chamou a atenção para o paradoxo existente nas organizações de saúde: existe uma enorme abundância de dados, mas pouco tempo e capacidade para os estudar e transformar em informação útil.

A investigação e a partilha de dados entre instituições foram apontadas como áreas onde existe ainda um importante caminho a percorrer.


Neste contexto, a inteligência artificial foi apontada como uma ferramenta relevante, mas não como solução mágica para problemas estruturais. A tecnologia poderá acelerar processos, ajudar na monitorização e apoiar a análise de informação, mas a decisão, porém, deverá continuar a ser humana.



Esta visão foi complementada pela intervenção da neurocirurgiã e investigadora Cláudia Faria, que defendeu a investigação como parte indissociável da prestação de cuidados.

Investir em ciência significa não apenas produzir conhecimento, mas também melhorar os cuidados prestados e criar condições mais atrativas para os profissionais.

Para isso, será necessário reforçar infraestruturas de apoio, treino e mentoria, bem como a interoperabilidade entre instituições clínicas, científicas e académicas.

O SNS visto por quem dele depende


A reflexão sobre o futuro do serviço público de saúde não ficou limitada às perspetivas institucionais e profissionais.

Carlos Plácido, transplantado pulmonar na sequência de esclerose sistémica, trouxe à sessão a experiência de quem dependeu diretamente do SNS.

“O SNS deu-me o estar aqui” foi a forma como resumiu o impacto do sistema no seu percurso.

O testemunho destacou também a relação construída com os profissionais de saúde, que descreveu como incansáveis e fundamentais no acompanhamento da doença.


Ao lado da voz de quem utiliza o SNS esteve também a de quem poderá vir a integrá-lo profissionalmente.

Raquel Peguinho, estudante de Medicina, expressou aquilo que uma nova geração procura na carreira: possibilidade de exercer com qualidade, qualidade de vida, investigação e acesso à tecnologia.

A valorização dos profissionais, deixou claro, não pode reduzir-se exclusivamente ao salário.

Transformar para preservar


Entre as intervenções acompanhadas pela ASPE, a apresentação de António Ferreira destacou-se pela forma estruturada como passou do diagnóstico à proposta.

Sob o mote “A refundação como defesa da promessa original”, apresentou uma reflexão sobre a evolução do SNS e sobre a necessidade de adaptar a sua organização às profundas mudanças ocorridas desde a sua criação, concluindo que o sistema se tornou, em certa medida, vítima do seu próprio sucesso.


O modelo construído para uma realidade predominantemente orientada para tratar, curar e dar alta enfrenta hoje uma população mais envelhecida, maior prevalência de doença crónica, multimorbilidade e necessidades assistenciais prolongadas.

Transformar o SNS, nesta perspetiva, não significa abandonar os seus princípios, significa, sim, encontrar formas de os preservar num contexto diferente.


Entre as propostas apresentadas estiveram a definição de um cabaz de serviços essenciais, a criação de uma Alta Autoridade Clínica Independente, o reforço da avaliação das tecnologias de saúde e uma maior utilização de critérios de custo-efetividade.

O financiamento foi outro dos pilares da intervenção, tendo António Ferreira apontado a necessidade de um modelo com receitas mais previsíveis e protegidas e defendeu uma mudança na forma como o Estado financia os cuidados.

Em vez de pagar predominantemente pelo volume de atividade realizada, o sistema deverá evoluir para modelos que valorizem os resultados obtidos e o valor criado para o cidadão.

IA? Quando a tecnologia pode devolver tempo às pessoas


Também a inteligência artificial ocupou um lugar relevante nesta visão para o futuro do SNS.

António Ferreira apresentou-a como uma espécie de “sistema nervoso do cuidado”: uma infraestrutura capaz de articular informação, apoiar os profissionais e, acima de tudo, libertar tempo para aquilo que nenhuma tecnologia deve substituir, a relação com o doente.


A Internet das Coisas e a monitorização de doentes no domicílio poderão igualmente assumir um papel crescente, sobretudo perante o aumento das doenças crónicas e a necessidade de acompanhar pessoas fora das instituições hospitalares.


O objetivo não deverá ser colocar mais tecnologia entre o profissional e o cidadão. Deverá ser precisamente o contrário: utilizar a tecnologia para retirar tarefas, simplificar processos e devolver tempo ao cuidado.



Juntos Construímos o Futuro!